Para essas pessoas que modificam suas bicicletas a fim de chamar a atenção, o que importa é a estética do veículo. Muitos nem se preocupam com a marca, mas procuram um conceito. E não é só aqui, que isso acontece, em São Paulo, o artista plástico apaixonado por bicicletas, Israel Nicoláu, 47 anos, há cerca de 15 tem como hobby transformar bicicletas em verdadeiros objetos de arte. Atualmente, ele tem mais de 70 bicicletas exóticas montadas, em sua casa tem 54 originais, que são encontradas pela casa toda, penduradas pela sala, e enchem um quarto que já está ficando pequeno.

Tanto para passear quanto para se locomover - vendeu seu carro há alguns anos -  esse paulista de sotaque carregado tem na bicicleta a segunda prioridade em sua vida, a primeira é sua mãe com quem vive até hoje. Mas tudo começou quando era adolescente e assistiu ao filme Easy Rider e se apaixonou pela moto que os protagonistas usavam. Ele conta que, como na época não tinha condições de ter uma moto, pegou uma bicicleta e modificou-a para deixá-la bem parecida com a moto do filme, e conseguiu. Sua primeira peça modificada é azul com estrelas brancas e listras vermelhas, lembrando a bandeira dos Estados Unidos, e é nitidamente baseada na moto do filme.

De 3 a 10 dias é o tempo que o artista plástico, especialista em aerografia e pintura, leva para construir uma de suas bicicletas exóticas, pois é um trabalho artesanal e não há outra igual. E a inspiração pode estar em qualquer lugar. “É difícil de explicar, vem na cabeça”, diz.

 Nicolau não vende as peças originais, que podem ser vistas espalhadas por alguns lugares de São Paulo. Na Associação Nacional dos Inventores (ANI) há duas peças, uma que foi feita em homenagem à entidade, em que constam as iniciais ANI no quadro, e outra com a bandeira do estado de São Paulo. Ele já expôs no Sesc de São Paulo e irá expor 25 bicicletas no Museu da Bicicleta, em Joinville.

Todas as bicicletas criadas por Nicoláu podem ser consideradas objetos de arte, mas todas são pedaláveis. O artista não vende as originais, pois como elas são feitas com material de reciclagem nem teria como utilizá-las no dia-a-dia. “80% do material que uso é peça usada. Eu compro muito de ferro velho, mas para alguma exposição importante e para vender eu uso apenas peças novas”, explica.

Cópias idênticas das bicicletas originais de Nicoláu podem ser encomendadas, e podem custar de R$ 300 a R$ 5 mil, pois é o cliente que escolhe o tipo de material a ser utilizado. Como o preço das peças varia de acordo com o material utilizado, o valor final da bicicleta será de acordo com isso e também, claro, do valor da criatividade do inventor, que já foi capa de revista e entrevistado na televisão por Jô Soares, Ana Maria Braga, Otávio Mesquita entre outros.

Já na obra do artista gaúcho Iberê Camargo, as bicicletas e os ciclistas foram coadjuvantes, pois estiveram presentes em suas obras na década de 1980. Foi nessa época que ele criou a série Ciclistas no Parque da Redenção, em Porto Alegre, e outras obras referentes ao veículo. Isso aconteceu quando o artista retornou ao Rio Grande do Sul, depois de um período vivendo no Rio de Janeiro. Tendo ido morar na Cidade Baixa, bairro próximo ao Parque Farroupilha, mais conhecido como Parque da Redenção, Camargo passou a freqüentá-lo e a conhecer os ciclistas que por lá passavam, geralmente sem rumo, apenas passeando.

Segundo a crítica de arte Lisette Lagnado, no site da Fundação Iberê Camargo, ao serem representados pedalando em direção à esquerda, como eram retratados pelo artista, parecem estar buscando o passado, as reminiscências da infância, o distante. “Sou um andante. Carrego comigo o fardo do meu passado. Minha bagagem são os meus sonhos. Como meus ciclistas, cruzo desertos e busco horizontes que recuam e se apagam nas brumas da incerteza”, disse Camargo. Juntamente com As Idiotas, Os Ciclistas marcam os personagens mórbidos que povoavam o imaginário do artista no final de sua vida.


  Mas muito antes de Iberê Camargo sentir-se atraído pela bicicleta, outros artistas já haviam sentido o mesmo. Em 1913 Marcel Duchamp, apresentou sua escultura intitulada Roda de Bicicleta, que foi considerada por críticos de arte como a primeira escultura que dá dignidade de obra de arte a objetos fabricados em série.

Na pintura, Armando Testa pintou Superga, em 1945; Alberto Savinio criou a Passeadora a Beira Mar, em 1947; Mario Sironi pintou O Ciclista, em 1916 e 1917; Gerardo Dattori criou Ciclista, em 1916; Fortunato Depero usou óleo sobre madeira para criar a obra Ciclista atravessando a cidade, em 1945. Em 1979, Arman criou a instalação Homenagem a Ladrões de Bicicletas, que faz lembrar as bicicletas resgatadas e expostas nos pátios das delegacias das cidades.

Assim como objetos de arte, a bicicleta inspirou vários compositores e várias músicas mencionando como as magrelas foram criadas. Queen, Pink Floid, Red Hot Chilli Peppers são exemplos de bandas internacionais que dedicaram uma faixa de seus trabalhos à bicicleta. No Brasil, Beto Guedes e Marcos Vale têm sucessos que cantam a bicicleta.

Mas além de estar presentes nas artes plásticas e na música, ela foi personagem no cinema também. Recentemente, o destaque é para o delicioso Bicicletas de Belleville, de 2003. O enredo mostra uma avó que tinha o objetivo de conseguir fazer seu melancólico neto feliz. Depois de muitas tentativas, ela lhe deu uma bicicleta e mudou a vida dos dois para sempre.

ET - O Extraterrestre (1982), Sundance Kid (1969), A vida é Bela (1997), O Carteiro e o Poeta (1994), Ladrões de Bicicleta (1978), entre outros são filmes em que a bicicleta aparece.

 

 


www.redpogo.com